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“Causos divertidos”, mentiras épicas e uma lágrima

 
Narradores de Javé, da cineasta paulistana Eliane Caffé, é uma das boas fitas da chamada Retomada do Cinema Brasileiro, que possui um enorme potencial de comunicação com o público, mas que acabou tendo vida curta nas salas de exibição. Lançada em DVD, é um entretenimento divertido, que, além de gargalhadas, toca num tema muito rico, a força da oralidade, a arte de contar histórias e passá-las de geração em geração.

A fita apresenta um dos melhores desempenhos do ator José Dumont (de O Homem que Virou Suco e Abril Despedaçado), que é reconhecido pela diretora como co-responsável pelo resultado da trama. Ele inventou falas, criou gírias divertidas e ajudou na construção da dramaturgia da obra, que mistura gente do povo com atores profissionais.

A história traz o personagem de Dumont como figura central. É ele que é incumbido de escrever em língua culta os feitos e a gloriosa história de Javé, o vilarejo fictício da trama, que, na verdade, não passa de um cantinho perdido no mundo, desimportante para todos que não viveram lá.

O personagem de José Dumont é o único semi-alfabetizado entre os analfabetos do lugar. Por conta disso, ele posa de erudito e passa entrevistar a população local para compor os tais escritos sobre a história da cidade. Com ar de autoridade, aborda cada um dos que são ouvidos: “Nome, sobrenome e pronome?”. A pergunta é uma das muitas falas divertidas do personagem criadas pelo próprio ator.

No trato pouco amigável com as pessoas do lugar, onde é detestado por causa de sua queda à fofoca e bisbilhotice, o personagem solta uma série de apelidos e invencionices hilárias. Piaba de Silicone, Manicure de Lacraia, Exu de Galinheiro são alguns dos achados. Para falar de um estrondo de boiada, ele usa o inspirado termo “dilúvio bovino”. Mas à frente, reclamando de ser sempre vítima de críticas, indaga: “Eu sou Pokemon de Jesus?”

O personagem também provoca um sujeito afirmando que foi “clonado de miolo de pão” e descreve o “colorido” como uma “desinteria de tinta”. Ao longo do filme (ainda em cartaz em Salvador) as tiradas vão aparecendo, aliás, bem mais do que a sua real missão. Da sua escrita deve sair um documento que prove o valor de Javé, a fim de que a cidade seja poupada pelo progresso e não seja inundada pelas águas de uma barragem.

Até o desenlace final, uma fita carregada da sinceridade que emerge da cultura popular. Uma ode à oralidade, com um elenco afinadíssimo, que inclui Nelson Xavier, Gero Camilo, Matheus Nachtergaele e Nelson Dantas. Mas é José Dumont, que rouba todas as atenções com interpretação perfeita e soberbo trabalho corporal.

Em tempo: a tal história de Javé precisa ser escrita porque os moradores do lugar esperam que isto consiga impedir a construção de uma barragem, prevista para inundar todo o vilarejo. Eles acreditam que provando que o lugar tem uma história importante conseguiram deter o projeto. Ninguém quer ser removido para casas doados pelo governo, querem a terra onde aprenderam a andar, onde estão enterrados os seus antepassados. Belo exemplo de um filme que faz rir, mas com direito a algumas lágrimas.


*João Carlos Sampaio é pesquisador, jornalista e crítico de cinema.

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