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A saudade é azul

 

Como um metrô que corta a manhã inundando de suor as pernas já cansadas dos dias e dias, amanheço. É quando a luz rebatida no aço sujo dos trilhos invade os olhos mais próximos. Uns verdes, outros de cores opacas, as olheiras viram bacia para as lágrimas não vertidas. Escorrem para dentro. Enchem de melancolia os rios quase rasos, molhados de medo. É quando me lembro de Tom Zé e pergunto “com quantos quilos disso se faz uma tradição?”. Sem resposta. Infinitos quilos de medo, de vaidade, de ócio. Ócio não, o contrário disso. Sou eu. Bacias, olheiras e rios enchem meus olhos fechados.

Não sei mais transbordar. Parece que esse som contínuo dos trilhos já gastos me consumiram de uma maneira estranha. Estreita. Quase sem sentido. Mas não, é além. Os sentidos todos estão longe daqui, desses momentos, dos monumentos negros, outros meio bronze. Eles falam, guardam histórias, eu não. Estou sem memória deste que cheguei aqui.

Acesso fácil ao infinito, aos gritos e a um monte de coisas estranhas. Mas não vi. Passaram despercebidos, perdidos, partidos. Como os abraços de Almodóvar. Quase cegos.
Segui. Virei à direita dos meus limites e descarreguei os celulares dos passantes para me agarrar ao futuro.

Descobri nesse caminho curto de vida, um homem trôpego que gostava mais de mar do que da própria embriaguez. Outro que não sabia mais em que terminal dormir. E mais um, que mesmo eu não lembrando seu rosto, trazia por dentro uma imagem sóbria de vida, parecia que havia comido luz.. ou lâmpadas gigantes, não sei, mas era bom de olhar.

São nesses pedacinhos de vida passadas por dois segundos nos nossos olhos que lembramos das próprias inutilidades e do mar imenso que habita nossas cabeças. Foi nesse dia que senti mais saudade de tudo. E olhando para mais longe das janelas vi meus olhos nos vidros do outro transporte e me assustei.

Descobri nesses dias que a saudade é azul... e falta tinta amarela nela.


Fotos: Ana Cotta

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