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Duas cordas, um nó e cinco parágrafos - A partida da cegueira

 
Houve um certo tempo situado num passado não tão remoto assim em que um importante acordo foi firmado entre duas cordas. A intenção do tratado era manter ambas amarradíssimas na curiosa idéia de nunca permitir a distância se aproximar. O acordo foi batizado de Nó Cego, pois suas criadoras faziam questão de ver o nome como melhor definição da parceria pela busca de tornar real a impossibilidade das partes se desatarem. Então as esperançosas cordas começaram a viver nesse Nó Cego com tamanho entusiasmo e vontade e ousadia e força e desejo suficiente para não chegar nem perto de se deixar levar pelo perceber de que o entrelaçamento era nada mais nada menos que o próprio resultado do simples ato de se atrair e atar.

Juntas elas sentiam o mesmo calor, compartilhavam a mesma casa, a mesma tensão, a mesma ilusão, o mesmo sentimento, corpo, momento, fome. Em forma de uma única corda elas experimentavam o que pensavam ser a superioridade e verdade plena da totalidade única, a maravilhosa sensação de unicidade que até então desconheciam. Acreditavam piamente que através do Nó Cego estavam repletas, completas, prontas e dispostas a se apertarem eternamente uma contra a outra com uma intensidade progressiva a destino de uma união sempre crescente. As cordas coexistiam satisfeitas e completamente certas de que o sentido de suas vidas era ser uma só vida sem fim, separação e diferença, com o propósito maior de se enrolar e desenvolver unicamente em torno de si mesmas.

Porém o desenrolar dos fatos, dos dados, dos dias e mudanças, fez a história tomar novo rumo. Depois de tão querido, almejado e valorizado, o Nó Cego de repente começava a enfraquecer, cansar, ganhar desânimo, perder rigidez, desandar, se tornando não mais um nó firme e resistente, mas sim um incômodo nó na garganta das duas cordas. De sonho, paraíso e paixão, o elo que tanto uniu as duas se transformava gradualmente numa fonte geradora de consecutivos imbróglios e quiproquós. Nesse ponto as cordas já haviam aceitado definitivamente a partida da cegueira. A inocência pegava carona e também se despedia. O nó que as prendia finalmente insinuava energicamente o que elas tentaram insistentemente evitar admitir: desatar era um futuro possível e iminente.

No lugar da cegueira que ocultava os problemas, minimizava as incongruências e fazia pouco da incompatibilidade, tomava espaço uma lucidez tremenda, luz insaciável, obstinada e decidida, que iluminava as cordas, elucidava as dobras e penetrava fundo na ilusão que ainda mantinha aquele dois em um. A retração foi instantânea. Como que institivamente, como se não pudesse ser diferente, as cordas cederam e se afrouxaram imediata e rapidamente. Soltas voltaram a ser dois. Duas cordas novamente livres. Tomaram a direção oposta, cada uma para um lado, em sentido e velocidade contrários ao movimento que as amarrou e prendeu. O que foi nó se fez pó dentro do vento e assim um ponto final.

Até hoje não se sabe exatamente como aquele vinho virou água, como surgiu luz daquela escuridão, como da noite para o dia o Nó Cego passou a enxergar. Sobraram comentários e boatos. Um deles conta que as duas cordas, já refeitas, recuperadas, renascidas e renovadas, continuam sós por aí, jurando que os nós existem somente para criar proximidade onde a distância nunca vai deixar de existir.

Foto: Cainha

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